Análise do Filme "La Haine" (O Ódio) - 1995, dir. Mathieu Kassovitz
"La Haine" é um marco cinematográfico que continua a ressoar décadas após seu lançamento, não apenas pela sua estética impactante, mas pela sua exploração crua e atemporal das tensões sociais e raciais nas periferias urbanas de Paris. Dirigido por Mathieu Kassovitz, o filme é um poderoso grito de alerta sobre a marginalização e a violência, filmado inteiramente em preto e branco, o que acentua sua atmosfera sombria e realista.
O filme se desenrola nas 24 horas seguintes a uma noite de tumultos violentos nos banlieues (subúrbios) parisienses, desencadeados pela brutalidade policial contra um jovem árabe, Abdel Ichaha, que está em coma. A narrativa acompanha três jovens amigos de diferentes origens étnicas – Vinz (Vincent Cassel), judeu; Saïd (Saïd Taghmaoui), árabe; e Hubert (Hubert Koundé), negro –, enquanto eles perambulam pelas ruas de sua comunidade e, mais tarde, pela própria Paris. O ponto central do enredo é a descoberta de uma arma perdida por um policial durante os tumultos, nas mãos de Vinz, que jura usá-la para matar um policial se Abdel morrer.
"La Haine" foi aclamado pela crítica, ganhando o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 1995. Seu impacto foi além da esfera cinematográfica, provocando discussões importantes sobre as questões sociais e raciais na França. O filme é frequentemente estudado como um exemplo de cinema socialmente engajado e continua a ser relevante em um mundo onde as tensões entre jovens marginalizados e as forças de segurança persistem.
domingo, abril 05, 2026
"La Haine" (O Ódio) - 1995, dir. Mathieu Kassovitz
sábado, abril 04, 2026
Whitman’s Sampler
um anúncio clássico da Whitman’s Sampler do início da década de 1950, focado na celebração da Páscoa. Ele exemplifica perfeitamente a estética e o marketing da era do pós-guerra americano.
O anúncio utiliza a técnica de ilustração pintada (provavelmente sobre fotografia), muito comum na época, que conferia uma aura de idealismo e perfeição às cenas cotidianas.
A "Família Ideal": O casal jovem, bem vestido e sorridente, reforça o padrão de felicidade doméstica e romântica da década de 1950.
Simbolismo de Páscoa: O coelho de pelúcia ao fundo estabelece imediatamente a conexão com o feriado, posicionando o chocolate como o presente padrão para a data.
O texto utiliza uma abordagem de psicologia reversa e lisonja voltada para o público masculino:
"Who says men don't understand women!" (Quem diz que os homens não entendem as mulheres!): O anúncio desafia um clichê para, em seguida, oferecer a solução. Ele sugere que, ao comprar uma caixa de Whitman's, o homem demonstra ter um "sexto sentido sobre a psicologia feminina".
O "Presente Seguro": O texto reforça que toda mulher conhece a caixa amarela da Whitman's e que ela é o presente "mais impressionante que um homem pode comprar". É uma venda baseada na segurança de não errar no presente.
A caixa amarela com padrões de bordado em ponto cruz é uma das peças de design de embalagem mais icônicas da história dos EUA.
Nostalgia e Tradição: O design evoca o trabalho manual e doméstico (o "sampler" era originalmente um pedaço de tecido onde bordadeiras testavam pontos). Isso passa uma ideia de tradição e qualidade "feita em casa", mesmo sendo um produto industrial.
Referência Histórica: O rodapé da caixa menciona "Started in 1842", reforçando a solidez da marca.
É curioso notar os valores da época: as caixas variavam de $2, $4, $6 a $10. Em 1950, $10 era um valor considerável para uma caixa de chocolates, posicionando-a como um item de luxo acessível.
EM DEFESA DOS FILMES DE TERROR
Vincent Price deixa de lado a tinta de Hollywood para discutir filmes de terror
EM DEFESA DOS FILMES DE TERROR por VINCENT PRICE
É tempo de a crítica de filmes, que começou a chamar de "terror" ou "horror" o que, na verdade, é, na maioria das vezes, drama baseado em emoções cinematográficas ou histórias originais criadas por nós, reconsiderar.
Duas coisas estabeleceram esta excitante forma de produção de filmes: o público e o ato de produção que, em filmes como os de American-International Pictures, testificam o apoio em massa do público por tais filmes como "A Mansão Usher" e "A Cova e o Pêndulo", do grande escritor de Edgar Allan Poe.
Por si só, para a maioria dos atores sérios, esses filmes de Poe provaram ser divertidos de fazer e uma fonte de grande satisfação. Além disso, a simples apresentação de dramas baseados em Poe, com sua extraordinária capacidade de "realidade" superficial, não pode oferecer. O ator, desafiado por tal material, tem a oportunidade de convencer, retratar a "irrealidade". Afinal, não é a premissa original de atuação, o ato da razão d'être, ou a razão de ser, a arte de fazer?
Um caso perfeito é o último filme The Raven, baseado em poemas de Poe, que, além de ser admiravelmente supervisionado para ser feito com, nesta imagem, dois dos melhores atores de Hollywood, Peter Lorre e Boris Karloff, certamente nos convence da veracidade dos personagens de Edgar Allan Poe, tão acreditáveis quanto eu. De fato, qualquer ator desse tipo de filme de terror ou horror oferece ao ator sério a oportunidade única de exercitar plenamente seu ofício e sua arte.
Também acredito que filmes como The Raven são, na verdade, importantes para o espectador, pois os personagens e as histórias incomuns que os acompanham são considerados em alguns círculos como um escape necessário do trivial e do mundano. Embora esses dramas sejam representativos de apenas um pequeno segmento de nossa população. É nessa fase que a arte de contar uma história de Poe se torna uma válvula de escape saudável e muito necessária para o americano comum.
O público que condena os filmes de terror e horror, também para aqueles com os faroeste, este tipo de entretenimento era responsável pela indústria original de maior prestígio de Hollywood.
Quanto a mim, prefiro levar meus jovens para ver um filme de Edgar Allan Poe, que, em todas as suas várias facetas, oferece um drama ou uma versão mais interessante da doença, recuos e questões da América. Penso que a maioria de nós, pensando na crise existencial, sente o mesmo autodepreciar-se para si mesmo, bem como para o mundo.
Eu, por minha parte, diria que os filmes de terror são produzidos com nosso talento principal e, vamos gastar menos tempo e corromper nossos epítetos de degeneração.
sexta-feira, abril 03, 2026
Sylvia Plath.
citação extraída da obra "The Bell Jar" (A Redoma de Vidro), de Sylvia Plath.
"the world itself is a bad dream."
"o mundo em si é um sonho ruim."
pressbook 2
típico de pressbook dos anos 1940/50
O texto pertence claramente à tradição dos pressbooks distribuídos pelos estúdios aos exibidores. Servia como manual de divulgação, sugerindo:
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Ornamentação das fachadas
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Uso de cartazes e “stills”
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Estratégias de distribuição de ingressos e concursos
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Fragmentos de texto para jornais
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Ênfase no trailer como principal ferramenta
quinta-feira, abril 02, 2026
pressbook
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sinopse “inflada”
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ficha técnica
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ganchos de divulgação
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chamadas sensacionalistas para cartazes e jornais
Esse tipo de impresso acompanhava a cópia do filme e orientava o marketing local.
2. Sensacionalismo e exotismo: marcas do sci-fi de baixo orçamento
From Hell It Came (1957), aqui chamado Veio do Inferno, é um dos filmes mais famosos (e infames) da era dos monstros-plantas e da paranoia nuclear.
O texto enfatiza elementos típicos:
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ilha exótica e fictícia
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nativos supersticiosos
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feiticeiros e maldições
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radiação nuclear como gatilho do horror
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cientistas americanos como “salvadores”
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um monstro reanimado que busca vingança
Tudo isso dialoga com a estética e a ideologia da época, onde o Oriente e o Pacífico eram retratados de forma fantasiosa e colonialista.
3. Construção do terror atômico
O texto destaca:
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“queimaduras de radiação”
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“pesquisas atômicas”
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“lenda de Tabasga” misturada à ciência
Esse cruzamento do medo nuclear com folclore inventado era uma fórmula muito usada entre 1953 e 1960. Filmes como The Beast from 20,000 Fathoms, Them!, Killers from Space trabalharam a mesma lógica.
Aqui, o monstro Tabanga é literalmente um cadáver transformado em árvore-radioativa vingativa — um ícone kitsch do horror dos 50.
4. Ideologia colonial explícita
Um ponto interessante (e problemático) na sinopse:
“Os nativos [...] correm para agradecer aos americanos.”
Isso evidencia uma narrativa onde o filme reforça:
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supremacia científica e moral dos EUA
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infantilização e demonização dos povos insulares
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estereótipos étnicos comuns no cinema B
O folheto brasileiro não suaviza isso — reproduz a visão do filme em tom heroico.
5. Estratégias retóricas do marketing
As chamadas finais usam repetição, exclamações e clichês diretos:
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“UMA BELA MULHER em poder de um terrível monstro!!”
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“NAS SOMBRAS DA NOITE”
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“AQUELA FORÇA SOBRENATURAL ATACAVA IMPIEDOSAMENTE!”
Isso é típico do exploitation cinematográfico: vender emoção, sugerir perigo sexual e realçar o grotesco.
TRANSCRIÇÃO
(From Hell It Came)
ELENCO
FICHA TÉCNICA
RESUMO DO ARGUMENTO
Korey ouve a confabulação e fica sabendo que pretendem dar ao monstro um poderoso remédio que o tornará seu escravo e de grande ajuda nos assassinatos. Korey, assustada, corre aos americanos, pedindo-lhes que a deixem ficar com eles, no acampamento.
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TERROR E MISTÉRIO DOMINAVAM OS HABITANTES DAQUELE ILHÁ MALDITA!
UMA BELA MULHER em poder de um terrível monstro!!... NAS SOMBRAS DA NOITE, AQUELA FORÇA SOBRENATURAL ATACAVA IMPIEDOSAMENTE!
Cenas de alta emoção e suspense em “VEIO DO INFERNO”!!
quarta-feira, abril 01, 2026
The New York Ripper (1982)
The New York Ripper (“O Estrangulador de Nova York”, 1982) é um dos filmes mais polêmicos e controversos do ciclo giallo tardio, dirigido por Lucio Fulci, que aqui leva o gênero ao limite da brutalidade e da degradação urbana.
Lançado num momento em que o giallo já começava a perder força, The New York Ripper surge como uma resposta desesperada — e ultraviolenta — de Fulci ao declínio do gênero e à ascensão do slasher americano.O filme se apropria da atmosfera dos thrillers policiais dos anos 70 (como O Exorcista Urbano e Maniac) e a funde com o sadismo estilizado típico do giallo.O resultado é um híbrido doentio entre o horror erótico italiano e o neo-noir nova-iorquino, filmado em locações decadentes da cidade real — metrôs sujos, motéis fétidos, luzes de neon sobre corpos despedaçados.
A trama acompanha um detetive que investiga uma série de assassinatos brutais cometidos por um serial killer que imita o som de um pato ao telefone — um detalhe tão absurdo quanto perturbador.As vítimas são quase sempre mulheres associadas ao desejo e à sexualidade, o que faz o filme dialogar (de modo ambíguo e provocador) com o discurso moralista da época.Por trás da fachada de um whodunit, Fulci constrói um retrato mórbido do desejo masculino e da violência como espetáculo, refletindo o estado de decomposição moral da metrópole.
Fulci, conhecido por seu domínio do gore e pela atmosfera febril, aqui abandona o onírico e o metafísico (de O Além, Pavor na Cidade dos Mortos-Vivos) para criar um realismo sujo, quase pornográfico.
A câmera se demora em detalhes do corpo — cortes, lâminas, feridas — de modo quase clínico.
A fotografia granulada e o uso agressivo de zooms e travellings criam uma sensação de voyeurismo constante.A violência é não apenas explícita, mas eroticamente coreografada, o que faz o filme ser lido tanto como misoginia extrema quanto como crítica da própria cultura do olhar masculino, algo que antecipa debates que o cinema de terror só retomaria décadas depois.
O assassino que imita um pato é uma metáfora grotesca do homem infantilizado e reprimido sexualmente, uma figura patética que destrói o que deseja.
A Nova York filmada por Fulci é um corpo apodrecido, espelho da psique doentia de seus habitantes — o sexo, aqui, é sempre uma promessa de morte.Em nível simbólico, o filme fala sobre a fragmentação do corpo feminino e a desumanização do erotismo na sociedade de consumo.
A câmera de Fulci, ao mesmo tempo cúmplice e acusatória, parece dizer: o horror está no espectador, não apenas na tela.
The New York Ripper foi banido ou censurado em vários países, inclusive no Reino Unido, acusado de ser “pura pornografia de violência”.
Mas hoje, é reconhecido como um marco transgressor, antecipando a crueza do torture porn e a crítica implícita à espetacularização do horror.Fulci transforma o giallo em algo próximo de Peeping Tom (Michael Powell, 1960) — um espelho obsceno da própria pulsão voyeurística do público.
The New York Ripper é um filme doente sobre uma sociedade doente.
Não há redenção, nem beleza estilizada, apenas o reflexo de uma era em decomposição moral e estética.
É um filme que repudia e celebra o horror ao mesmo tempo, desconfortável e impossível de ignorar — um verdadeiro testamento do cinismo e da desesperança de Fulci diante do fim do giallo.
“O horror aqui não é sobrenatural — é humano, urbano e pornográfico. É o rosto real do inferno dos anos 80.”
























